domingo, 28 de março de 2010

AVE MARIA!

Cai agora
uma chuva fina,
até parece um nevoeiro...
Por oras aumenta,
torna-se garoa
ou um leve chuvisqueiro.

E eu aqui, à toa.
Por trás da vidraça
vejo o pardal se espanar
numa dança natural;
no outro lado,
vejo o sabiá cantar.

Penso, então:
-Sou feliz, tenho meus olhos,
tenho esta janela...
Posso ver a chuva cair
bater na vidraça
e escorrer por ela.

A chuva me faz ver
o mundo
além desta janela envidraçada;
sentir vontade de estar lá fora
sorrindo
com a face molhada.

Agora a chuva é um pouco mais forte
tornou-se um aguaceiro
e o vidro embacia...
A tarde, aos poucos
vai perdendo a cor
e se tornando fria.

São seis horas da tarde,
a chuva continua
molhando o fim do dia...
Fecho a janela
e ouvindo os pingos lá fora
rezo a AVE MARIA!

Rui E L Tavares

(28/03/2010)

POBRE MENINO DE RUA

Na periferia do sonho
desiludido,
perdido
na vida
vamos lhe encontrar.
Sem eira
nem beira,
sem poder sonhar.
Tudo lhe é distante:
-O amor,
-um carinho,
são horizontes
que não consegue enxergar.
Sozinho no mundo,
atirado,
abandonado
à própria sorte
espera a morte chegar.
Pobre menino de rua
que da Lua
faz a sua lamparina;
da calçada
o seu leito;
da rejeição
a sua sina.
No peito
um imenso vazio;
na alma o desamor;
no corpo
o frio
das noites de inverno.
Pobre menino de rua,
nos olhos
o brilho da inocência,
uma esperança
talvez...
Uma lembrança
quem sabe...
É apenas um menino
na verdade,
em qualquer cidade
por ai
neste mundo de Deus!
Mas as multidões
que passam por ele
não ouvem o seu pedido,
viram-lhe as costas
como se fosse um bandido.
Pobre menino de rua,
que futuro terás
nesta sociedade seletiva,
preconceituosa
que extirpa
um botão como tu
impedindo de se tornar uma rosa!

Rui E L Tavares

(28/03/2010)

VOCÊ É QUASE TUDO...

Você,
sonho bom que tive
na noite que passou
e na outra noite
e na outra...
e que nesta retornou.
Você,
que aconteceu na minha vida
e desde então
e ontem
e sempre...
povoou minha ilusão.
Você,
que se tornou o Sol
que trouxe luz ao meu dia,
luar à minha noite,
harmonia ao meu verso,
encanto à minha poesia.
Você,
que dorme comigo
no sonho que me acalanta,
no silêncio,
no ruído...,
na paz que a tudo suplanta.
Você,
doce soberana do meu "eu"
é tudo isso sozinha.
Contudo
não é tudo
pois não é minha.
Você, Rainha
fez de mim um Rei,
um monarca menos sisudo.
Você é meu sorriso,
o meu Paraíso,
o meu "quase tudo"!

Rui E L Tavares

(27/03/2010)
PENSAMENTO REFLEXIVO

Se me apalpo e me sinto,
se falo e me escuto,
por que minto?
por que reluto?

Sou omisso?
sou covarde?
por isso
já acho tarde?

Ou sou acomodado
pois sou antigo
condicionado,
nada é comigo...

Com os outros é tudo
comigo nada
contudo
eu estou nessa parada.

Se não der pra respirar
se acabar a água
vou lamentar
vou gritar a mágoa.

No entanto
fico calado
aqui no meu canto
alienado...

Fico vendo no jornal
o futuro da minha sina
pois matam meu planeta afinal
bem ali na esquina...!

Rui E L Tavares

(24/03/2010)

"DEVANEIO"

Vou quebrar meu verso
de propósito
e jogá-lo num depósito
de lixo urbano.

Estou cansado de ser humano,
dessa "racionalidade" enfadonha
que me envergonha
quando escrevo.

E ainda me atrevo,
nessa loucura que me afeta,
aceitar que me chamem de poeta
num descalabro

Macabro,
que faz de mim um Judas
que se perfumou de arrudas
num verso profano

Insano,
apenas mais um rabicho,
a incrementar o lixo,
mundano.

Não quero mais ser "fulano",
quero ser apenas "eu",
alguém que se perdeu
no meio humano.

Rui E L Tavares

(24/03/2010)